# 4 > A outra face das fotos


A outra face das fotos 
Reminiscências e elucubrações sobre a arte e a prática do fotojornalismo
.


Voltando a uma fase absolutamente fundamental 
(no trabalho e na vida), lanço, finalmente, 
este livro afetuoso, com histórias de fotos 
dos meus tempos de fotojornalista e algumas reflexões: 

A outra face das fotos 
Reminiscências e elucubrações sobre 
a arte e a prática do fotojornalismo

Penso mesmo que cada fotojornalista 
deveria ter a oportunidade de publicar um livro assim, 
histórias de algumas de suas melhores fotos, 
e quem sabe Guina &dita...

Contando com as preciosas apresentações de 
Marcos Vinicio Cunha e Romildo Guerrante
o livro foi lançado na Sociedade Fluminense de Fotografia,
em 10/06/2014.

Enquanto se definem outros lançamentos 
e sendo um projeto tão pessoal quanto artesanal, 

as vendas são diretas, do autor ao leitor.



Agora com desconto, no plano 
LEIA (E VIVA) A DEMOCRACIA!

Deposite R$25,00
em uma das contas abaixo:

 

 Banco do Brasil – ag. 2907-6 – c/c. 49.364-3 (Aguinaldo)
Bradesco – ag. 0471-5 – c/c. 64263-0 (Aguinaldo)
Itaú – ag. 8938 – c/c. 03569-1 (Regina).
 
 Pelo e-mail guinaedita@gmail.com, informe o banco utilizado
e forneça ENDEREÇO para o envio do pedido.






Transcrevo aqui, muito honrado, a

Apresentação,

por Romildo Guerrante



Fotógrafos são seres especiais. Vivem da luz. São iluminados. Se falta luz, eles dão seu jeito. Fotógrafos veem mais que nós, pessoas comuns. Enxergam coisas que Deus duvida. Saí para uma matéria com o mestre Evandro Teixeira na Cinelândia, década de 70, temporada de febre de matérias sobre pessoas presas em elevador.  Fiquei preso ao resgate dos passageiros. Evandro sumiu. Apareceu à noite na redação. O chefe de reportagem leu meu lide e me disse o seguinte: Vai lá na Fotografia e veja a foto do Evandro que nós vamos usar. Acho que você vai ter de mexer nesse material...
Tive de mudar tudo.
Evandro, trocentos anos de experiência, tinha me deixado ali entre bombeiros e resgatados e correu pro outro lado da Rio Branco, subiu numa marquise e de lá, com tele, fez algo que eu não tinha visto: o ascensorista liberado pelos bombeiros contava sua aventura numa roda de jornalistas e curiosos. Acima da cabeça deles tinha um cartaz do filme da semana no Odeon, que a esta altura da vida não me lembro mais o que era, mas que tinha tudo a ver com o que havia acontecido. Evandro viu que aquela era a foto. Evandro tem visão periférica, como todo bom fotojornalista.
Assim são os fotojornalistas. Você olha um fotograma de uma cena que presenciou e não percebe o que ele percebeu. Vai  lá no canto do quadro e tem uma informação visual, quase que escondida. Você, editor de jornal, que não corte a foto por ali, ou a foto perde o sentido. Aquilo tá amarrado no foco central da foto.
Esta é uma das dificuldades do fotojornalismo. O editor de jornal tem de ter sensibilidade pra fotografia, tem de entender de fotografia. Assisti a uma cena, certa vez, no JB, que me deixou constrangido. Na reunião de primeira página, o editor de fotografia entrou e botou na frente do editor-geral seis fotos de um assunto qualquer. Não me lembro mais. Não me cobrem isso. Puxou três e disse ao editor-geral: A capa tá numa dessas aqui. O editor deu uma olhada rápida e desinteressada no que lhe foi mostrado, espichou a mão e apanhou um das três que tinham sobrado: Vai esta aqui.
Claro que o editor de fotografia ficou sem graça na frente de todos os editores. Mas não desistiu da profissão. Uma profissão que exige persistência, como lembra Alan Marques, fotógrafo da Folha de S. Paulo, em seu livro Caçadores de Luz: "Ser fotógrafo é trabalhar como vendedor: às vezes não se fecha o negócio no primeiro momento, mas não se pode desistir".
A grande foto, que começa muitas vezes numa saída para mais um evento qualquer, associa ao seu sucesso também o repórter que acompanha o fotojornalista, que com ele tem, ao mesmo tempo, intimidade e respeito. E frequentemente associa também o motorista que conduz a equipe, objeto de interesse da jornalista Sylvia Moretzsohn, autora de Repórter no volante – O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia. São todos cúmplices na produção da notícia. E o fotojornalista está ali junto pra mostrar que o que se diz é verdade. Houve muito disso durante a ditadura. O fotógrafo Milton Guran lembrou em entrevista recente que, durante o governo Médici, percebeu que era mais fácil informar através da imagem do que do texto.
Há aspectos na profissão que não são tão românticos como as histórias engraçadas que o colega Maurício Menezes conta em seu show Plantão de Notícias. Não seríamos jornalistas se não quiséssemos abrir mão de conforto doméstico, de fins de semana livres, de Natal com a família. A profissão é de sacrifício, cada vez exige mais sacrifício. O fotojornalista hoje raramente pode se dedicar à busca do melhor ângulo, da melhor luz, do melhor enquadramento. Olha, vê e clica. São tantas as pautas a cobrir no jornalismo diário da grande imprensa que uma sessão de fotos para o primeiro caderno é quase impossível. Tudo vira flagrante. E até para fazer flagrante é preciso experiência.
O fotógrafo Alberto Jacob, de quem todos os chefes se queixavam por “gastar muito filme” em época de contenção de despesas (hoje estado permanente das grandes publicações diante da concorrência cada vez mais acirrada), trazia sim um Tri-X 400 ASA com mais de 40 exposições ao fim do dia. Aproveitavam-se duas ou três fotos. Mas o que se aproveitava volta e meia estava na primeira página.
Não peçam a um fotojornalista rápido no gatilho, perdão, no clique, que bote tudo em quadro e tudo em foco na feitura de flagrantes. É possível que nem tudo esteja perfeito, é possível que seja necessário cortar adiposidades. Normal. Tudo acontece com muita rapidez diante do fotógrafo que está na rua. A rua não é um estúdio com iluminação e movimentos sob controle. É um caos em andamento. Tem de prestar atenção em tudo. O cineasta francês Jacques Tati nunca filma apenas uma cena em primeiro plano. Atento aos filmes dele, porque há segundos, terceiros e, às vezes, até quartos planos. A diferença é que Tati ensaiava o que iria filmar.  
Não há como ensaiar uma foto de uma jogada no futebol. A lente tem de estar em cima do lance, acompanhando tudo. E contando também com a sorte. Conta-se que Alberto Ferreira, que durante muito tempo foi chefe da fotografia no JB, era o único fotógrafo que cobria futebol a partir das arquibancadas. E o único que conseguia equilibrar nos braços uma tele de 500mm. Não sem razão, é autor da maravilhosa foto da bicicleta de Pelé que correu mundo.
De vez em quando me bate uma desesperança com relação às novas gerações de fotógrafos que estão chegando às redações – e um número considerável de fotógrafas –, diante do quadro que encontram no ambiente de trabalho, das multiplataformas intermitentes, que tiram foco da pauta e colocam na velocidade. Mas me surpreendo com alguns lampejos brilhantes que vejo no dia a dia. Mesmo com cortes mal feitos e desnecessárias legendas descritivas das imagens, volta e meia eu dobro o pescoço de lado para ver lá no cantinho, escondido, o nome do profissional que registrou daquela forma aquele fato que comportaria vários enquadramentos possíveis.  
Aguinaldo Ramos viveu todas essas experiências durante muitos anos. Acompanhei-o em algumas matérias, apreciei seu modo de trabalhar. Hoje, vejo Aguinaldo ainda mais que fotojornalista, um pesquisador social com olhar agudo sobre mobilidade urbana, inquietações comunitárias, representações políticas. Além da própria fotografia, pela qual é apaixonado. Foi a paixão que o conduziu a este livro. Um livro de imagens e histórias, muitas delas engraçadas – talvez nem tivessem sido tão engraçadas na hora em que foram vividas –, histórias de uma humanidade posta a serviço de um trabalho que demanda paixão.

Romildo Guerrante

Jornalista há mais de 40 anos.

Edita, atualmente, a revista Bio.
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário